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Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2019

Mil Receios e Incertezas Vis

Mil receios e incertezas vis me acabrunham e abatem. Procuro fugir dos mesquinhos e pusilânimes pensamentos e abraçar despudoradamente o fracasso. Temer o falhanço mas avançar implacavelmente rumo ao infinito, buscando um amanhã mais sorridente e a serenidade contagiante de quem nada espera. Não prestar atenção às invejosas comadres e recordar sempre a sua emporcalhada intenção. Manter o olhar firme na vitória que me aguarda e não temer os solavancos naturais das dores de crescimento. Amanhã verei o caminho feito com distanciamento. Olharei orgulhoso para as dificuldades ultrapassadas e a obra construída. As distantes vozes ameaçadoras não serão mais do que uma sombra da sua insignificância. Usufruirei do alcançado e do seu legado. Seguirei agora outro caminho, com maior saber de experiência feito. Maior capacidade para enfrentar novos desafios, novos receios e novos e maiores obstáculos. Este é o caminho inevitável para a invencibilidade. Vamos faze-lo juntos.

Humana Reprodução

Sinto-me assim alvoraçado, escorraçado da pessoa que fui quando te conheci. Vejo o avolumar de responsabilidades, medidas pela rugas na tua fronte e as cãs no meu cabelo. Não sei voltar aquele viver despreocupado, isolado do caos alheio e das imperiosas necessidades. Não recordo mais o aroma do vento veranil e estou certo que a maresia não tem mais efeito em mim. O imediatismo e as suas desconhecidas consequências excitam os átomos e os ânimos juvenis. Observo nostálgico, enquanto vivo duas vezes, as trocas e alegres dizeres. Tudo sempre será assim. Essa é a inevitabilidade perene da humana reprodução...

Fingimento

Todos os dias são bons para morrer. Todos os momentos são oportunos e indicados para te libertares do fardo de existires. Da absurda necessidade de corresponderes ao que de ti foi dito. Os resquícios de ti, que intencionalmente deixas transparecer, são os mesmos que te aprisionam na camisa de forças da tua imagem espelhada. A morte soltar-te-à as grilhetas desta falsidade auto-imposta e permitir-te-à, finalmente, experienciar a verdadeira liberdade. Somos todos prisoneiros das nossas ilusões. Vivemos enganados até que a certeza da nossa mortalidade nos surpreende, destruindo os alicerces de uma de uma vida construída com falsos pressupostos. A dolorosa e libertadora reconstrução permite-nos, muitas vezes tarde de mais, a ascensão das cinzas e do podre fingimento. Na insuportável clarividência posterior, enojam-te as convenções e os sentires forçados. Sentes em ti a necessidade suprema de te a...

Mortalidade Adiada

Vivemos uma ilusão de infalibilidade, de mortalidade adiada para tempos longínquos. A morte acontecerá apenas depois de tudo intensamente vivido e conquistado. Depois de nada mais restar por fazer. Os outros, desgastados e afligidos por maleitas várias, são espécie diferente. Não são urdidos do mesmo barro primordial. A estrada que se estende à nossa frente é feita apenas para desbravar cidades e desflorar virgens com um simples olhar. Há um delicioso sentimento de omnipotência. Há um vigor que transpira na vivacidade e aprilino ímpeto. Existe a necessidade hormonal imperiosa de viver tudo no imediato. Como se a vida se esgotasse entre grãos de areia demasiados céleres. A urgência de acontecer impele e possibilita as mais saborosas conquistas assim como os mais trágicos dissabores. Os músculos firmes e retesos presenciam as mais deliciosas tragicomédias. Este sangue que te ferve nas veias e a vontade de viver sofregamente que te asfixia pela impossibilida...

O Ridículo

Que deliciosa altivez e absurda forma de tratar. Quão ridiculamente minúscula te deves sentir para que trates o mundo com tamanha sobranceria e desdém. Que mágoas e inferiores complexos te amedrontam e diminuem? Receias a descoberta da pequena pessoa que te habita? Temes perder o ascendente se te souberem igual? Todos somos intrinsecamente iguais no receio do desconhecido e no medo do avassalador falhanço. És o ser que te fizeste e que te aconteceu. A forma como recuperaram das mazelas os teus ossos partidos auxiliam na terra-formação da tua personalidade. Aa fracturas calcificadas são geralmente a zona mais forte de um coração partido. Assume-te na tua fragilidade e perde a falsa dureza de quem teme o ridículo.

Resíduo de Mim

A verdade é que nunca me conheceste.  Viste apenas o resíduo de mim e as das minhas crenças. Nunca me viste chorar. Nunca sonhaste os meus sonhos. Nunca sentiste a aspereza do meu desespero. Nunca me viste triste e partido, sem remendo. Nunca vibraste com as minhas vitórias. Nunca compreendeste os meus lutos. Nunca partilhaste os meus anseios. Nunca lambeste as minhas feridas ou acalmaste os meus anseios. Nunca encaraste os meus receios. Nunca nutriste os meus sonhos. Nunca me perdoaste o imperdoável. Nunca foste além de ti. Nunca sobraste. Nunca te deste. Raramente me encaraste. Fui assim para ti acessório em fim de colecção. Moldura com imagem bonita formatada. Adereço de qualidade duvidosa. Agora vejo claramente esta história desinspirada. Vejos os risos forçados e os prazeres incompletos. Vejo o vazio nos semblantes e o olhar perdido na vidraça. Vamos colocar um fim à morte anunciada. Estipular um di...

Espaço em Dobro

Desfia-se o novelo enquanto desfazes os castelos construídos. Arrumas as malas e redescobres as ditosas memórias daqueles lugares recônditos onde juntos brincavam e criavam mundos fantasiosos. A tua vida envolta em plástico e a vontade de ficar acompanham-te. Terás espaço em dobro e alegria dividida. Não percebes a urgência e a violência da partida e confunde-te ver o que fica para trás. Cravas as unhas numa desesperada tentativa de parar o inevitável futuro que se advinha. Argumentas entre grossas lágrimas e vozes entrecortadas. Juras mudar. Serás a perfeição e a sua imagem. Seguirás cuidadosamente as instruções que te farão exemplar. Mas tu és a união e o seu contexto. És o orvalho da manhã e o primeiro dia de praia. És a lua cheia e luminosa e o cheiro a terra das primeiras chuvas. És o inesperado sol de inverno e o campo imenso florido. Nós somos as lutas vociferantes concentradas na imperfeição alheia. Somos a dupla beligerante e os anos perdidos. Somos a inaptid...

Olimpo

Não me sei capaz de obras maiores. De dizeres mais eruditos ou escritos completos. As intrincadas histórias, plenas de curvas e entroncamentos fascinam-me pela complexidade da sua trama assim como pelas vidas enredadas. Estas vidas lidas parecem ter sempre existido em suspenso, aguardando apenas por quem as narrasse com detalhe realista. As dores e alegrias careciam apenas do surgimento de um rigoroso escriba para que se manifestassem em toda a sua plenitude. Vejo-me incapaz na presença dos maiores. Mitos e lendas que intimidam e fazem duvidar se viver é possível em concordância com a exigência da tarefa. Reduzo-me à minúscula existência do bajulador. Do adorador incrédulo e do fã endeusante. Também eu aspiro pelo Olimpo na minha insignificância. Se não sonhar de que serve existir?

Perpétuo Processo

Estou assim angustiado, cansado de sentir e esperar resoluções. Simultaneamente, sinto-me empedernido e casmurro perante as possíveis soluções e as perspectivas de apaziguamento. Fico na ridícula situação de ansiar uma favorável deliberação e, concomitante, o seu recurso para instâncias superiores. São estes dois eus que se apresentam e guerreiam. Anseiam pela paz, originando guerras. Estes sempiternos contendentes anseiam tudo e o seu oposto e julgam ver na ordem negociada um sinal de fraqueza. Atormentado e cansado, promovo encontros multilaterais esperando tréguas. Adormeço pensativo e acordo exausto na expectativa de consenso. Oito horas de peleja entre folhas de algodão têm as suas nefastas consequências.   O processo parece não tramitar e o desembargador recusa-se a analisar os argumentos. As partes interessadas engalinham-se e aprofundam divergências em procedimentos sem fim. No final, desisto da vitória e entrego-me alquebrado ao perpétuo p...

Talvez Viver Seja a Saída

Todos os dias imagino a vida que podia ter sido e as suas bifurcações e pendências. Vejo com detalhe os sorrisos e as gargalhadas e o vazio de nos sentirmos alienados. Sinto-nos hesitantes como se a ausência de raízes nos impedisse de medrar. Sinto-me meio, sem plenamente encarar o sol nascente e a sua luz emanante e retemperadora. Sinto-me a viver em tempo emprestado, num solo a que não pertenço e não me alimenta a alma. Apercebo-me do fascínio e das memórias invejadas mas sinto-te vaga, levitando entre funções e programas de lavagem sem a intensidade de antanho. Suponho que queiras mais do que aqui não tens. Que queiras lá a tua vida de aqui. Que fantasies com a fusão das duas vidas e a concretização dos planos adiados. Mas peço-te que esqueças a utópica tentação. Permite-te sentir o solo entre os dedos na terra que nos acolheu. Desorganiza-te e abandona a planeada história de amor. Vamos viver a imperfeição destes dias serenos na certeza de que não voltarão...

Ego Violentado

Triste final este de não mais te poder amar por te amar tanto. O desfecho foi inevitável ainda que infeliz. Revivo o inadiável desenrolar da realidade e penso que nenhum desfecho terá sido tão ineludível quanto este violento fim. Quantas noites revivi, de olhos empapados, possíveis cenários para este fim apoteótico? As hipotéticas e supostamente dignas saídas desta triste novela enchem-me de pesar pela sua hipocrisia. Não darei nunca a outra face a quem martiriza e aflige sem consideração. Pondero absorto os paralelos universos sabendo que tudo se encaminha para um culminar pré-determinado. Nada nunca poderia ser diferente. Fica a saber que sofri de antemão por imaginar as terríveis possibilidades, sem nunca entrever solução diferente. A morte e o satisfatório e aviltante frémito violento apoderam-se controlando-me na busca pela satisfação de te ver vingado, sem nunca almejar a substituição. Nada substituirá a felicidade que te foi retirada em laivos de vermel...