Todos os dias imagino a vida que podia ter sido e as suas
bifurcações e pendências.
Vejo com detalhe os sorrisos e as gargalhadas e o vazio de
nos sentirmos alienados. Sinto-nos hesitantes como se a ausência de raízes nos
impedisse de medrar.
Sinto-me meio, sem plenamente encarar o sol nascente e a sua luz
emanante e retemperadora. Sinto-me a viver em tempo emprestado, num solo a que
não pertenço e não me alimenta a alma.
Apercebo-me do fascínio e das memórias invejadas mas
sinto-te vaga, levitando entre funções e programas de lavagem sem a intensidade
de antanho.
Suponho que queiras mais do que aqui não tens. Que queiras lá
a tua vida de aqui. Que fantasies com a fusão das duas vidas e a concretização
dos planos adiados.
Mas peço-te que esqueças a utópica tentação. Permite-te
sentir o solo entre os dedos na terra que nos acolheu. Desorganiza-te e abandona a
planeada história de amor.
Vamos viver a imperfeição destes dias serenos na certeza de
que não voltarão. Nada será como supões sofregamente. Os sonhos e os seus
detalhes aturados quase sempre desiludem.
Talvez o abandono seja a solução. Talvez viver seja a saída.
Talvez agora seja o momento.
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