Desfia-se o novelo enquanto desfazes os castelos construídos.
Arrumas as malas e redescobres as ditosas memórias daqueles lugares recônditos onde
juntos brincavam e criavam mundos fantasiosos.
A tua vida envolta em plástico e a vontade de ficar acompanham-te.
Terás espaço em dobro e alegria dividida. Não percebes a urgência e a violência
da partida e confunde-te ver o que fica para trás.
Cravas as unhas numa desesperada tentativa de parar o
inevitável futuro que se advinha. Argumentas entre grossas lágrimas e vozes entrecortadas.
Juras mudar. Serás a perfeição e a sua imagem. Seguirás cuidadosamente as
instruções que te farão exemplar.
Mas tu és a união e o seu contexto. És o orvalho da manhã e
o primeiro dia de praia. És a lua cheia e luminosa e o cheiro a terra das
primeiras chuvas. És o inesperado sol de inverno e o campo imenso florido.
Nós somos as lutas vociferantes concentradas na imperfeição
alheia. Somos a dupla beligerante e os anos perdidos. Somos a inaptidão e a
miopia afectiva.
Sentes-te vencido e abandonas-te prostrado aos sons alienantes.
Rejeitas esta novel realidade tão absurdamente imposta. Não entendes a sua
origem e quedas-te entorpecido aguardando instruções.
Duas novas realidades te aguardam. Dois sentires
espacialmente divididos. Tu és o ponto de contacto entre universos paralelos.
És as mãos que se tocam e as palavras que se trocam. És convívio ameno e a
razão dele existir.
Comentários
Enviar um comentário