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Mensagens

A mostrar mensagens de novembro, 2018

Arruinei-te. Perdoa-me.

Destrui-te, meu amor. Implacavelmente limpei da tua cara a jovialidade e inocência que te tornavam bela. Quis fazer de ti estoutro, covarde que sou. Fiz-te cínica e avisada nos argumentos. Ensinei-te a brandir a tua espada, golpeando impiedosamente à esquerda e à direita. Arruinei-te, meu amor. Quis que fosses tu, sendo eu. Estúpidas ambições só alcance da alma pequena que me habita. No caminho feito destrui-me, meu amor. Arruinei a ínfima possibilidade que o universo me apresentava de ser quem ansiava, desgastando-te. Na há adesivo que una o que eu metodicamente desmembrei. Voltaria atrás hoje se possível fosse. Ver-te-ia, apaixonado, com a alegria bailando nos teus olhos. O caminhar dançado me encantaria sobremaneira. Observaria, como se de um filme se tratasse, a rodagem do teu viver feliz e despreocupado. Fiz-te sizuda e taciturna. Um bastaria para tal sina. Perdoa-me.

Estrela do Mar

Andamos toda uma vida escondidos, mascarados entre sorrisos, palmadinhas e momentos de amor efémero. Está mais do que descrito em infindáveis pergaminhos. Tu és tu quando não te reconhecem. Quando o franzir do teu olhar os atemoriza. Já sentiste a raiva brotante desmascarada. Observaste às claras os recônditos mais sombrios e fervilhantes da minha desesperança. E tu, despida de fantasias, olhando incrédula. A incredulidade de saberes que sou capaz. A encenação crua, reveladora e auto-biográfica. Clamo pelo afastamento, aproximando-me. Odeito-te violentamente, admirando-te. Amo-te ternamente no isolamento despreocupado. Na leveza de não pensar. De não saber contar os pormenores matutinamente revelados e, ignorando, ser feliz. Sou a estrela do mar Só ele obedeço, só ele me conhece Só ele sabe quem sou no principio e no fim Só a ele sou fiel e é ele quem me protege

Canseiras Maternais

Costas vergadas no amor de te transportar. Olhos enxutos na hora de te aconchegar. São amores infindáveis e sonhos antecipados. Peito aberto e braços que se estreitam para te amar. Sonolento e cansado na inocência de não saberes. Como é bela a ignorância do teu ser feliz! Como me satisfaz ver-te ser. Este viver vicariante pleno de canseiras e alegrias desmesuradas pela simplicidade dos objectivos alcançados. É dar-te os dias, os anos e o respirar para te ver medrar. Desistir do viver, olvidando quimeras, para te ver vencer. Tudo se repete - e certamente compreenderás - tudo o que fiz no anseio de te amar.

Tic Tac

O martelar consecutivo das teclas marca o correr do tempo, demasiado lento para ser vivido. Sonhos esfacelados a cada repetição inexorável desta dança digital. Agradeces cínico a atenção dispensada. Sorris à meia-cara a visita não planeada. Trabalhas à jorna pelos sonhos de outrém, com os teus anseios submersos num mar de soluços transportados em bancos desportivos pagos a crédito. O suor empapa-te a roupa, colada à pele, nessas noites estuporadas em que acordas o despertador com a tua agitação. Tic tac, tic tac. Paredes e tectos adormecidos. Mentes despertas e sorumbáticas. Rotinas impecavelmente engomadas. Uniformes monocromáticos e sapatos encerados. Retomas contrafeito o alcatrão conhecido entre dois berros e o café deglutido. Entras suspirando pela hora de partir. Remuneram-te a escravidão do teu viver com afirmantes palmadas e sorrisos vencedores. Desiste e submete-te. Esquece o que foste e abraça quem serás até o fim dos teus dias.

Ilha dos Amores

Necessitamos de tudo mesmo sabendo que o simples chegaria. Não nos é sufciente a abastança proporcionada pela vivência alcançada. Os pequenos luxos parecem tão indispensáveis quanto revoltantes em análise posterior. Há um sentimento de incompletude, de insufciência por comparação. Há uma espécie de benchmark  sociológico que nos impede de nos sentir saciados, que nos entrega à insatisfação por comparação. É como se só vivessemos se esseoutros nos virem viver. Uma validação social debilitante sem a qual nada basta e tudo é vão. Um vazio preenchido por polegares entendidos e sorrisos digitais. Por sensualidades fingidas e vidas glamorosas. Seduções efémeras e vácuas que persistem e tendem a enganar os mais experientes navegadores. Um canto de sereia inebriante que te conduz ao abismo. É imperioso desprendermo-nos destas ficções sociais em rede. Soltar amarras e navegar sem rumo ou janela digital.

Revolution

Sabes que os sonhos desfeitos são a argamassa que impede a implosão desta forma de viver? O nine-to-five que te impede de sonhar, é o mesmo estupor que segura a estrutura da sociedade tal como a conhecemos. Quando já não te recordas das tuas ambições… Quando vês as tuas quimeras como sonhos de criança então já morreste e aguardas apenas a hora do teu enterro. Esse féretro de costuras bem urdidas e corte apurado disfarçaria mal o teu viver cabisbaixo se, fora de portas, não fossem todos como tu. Não procures a resposta na indiferença. O comboio continuará beijando os carris desapaixonadamente até a próxima deriva revolucionária.  

Nada Mais Resta

Nada mais resta, meu amor. Sobrámos nós, velhos e amargurados pelo que deixámos por fazer. Vivemos tudo sem sentir verdadeiramente. Esgotámos palavras que ficaram por dizer no manancial verborreico que nos entorpeceu os sentidos. Perdemo-nos e não sei mais encontrar-te. Não sei, sequer, se quero ou devo ir no teu encalço... Sou mau detective em causa própria - péssimo. Obtenho demasiado prazer da auto-comiseração. Da estética depressiva e dos tons de sépia. Odeio e adoro sentir. Esta estúpida dualidade entorpece-me. Este embotamento aborrece e, ainda assim, esclarece. Trás luz à escuridão dos dias medidos e palavras aos pensamentos mudos.

On The Road

De lés a lés. Sem te ter em conta. Ter-me apenas em conta. Viver uma história já escrita e não vivida. Viver-te hoje desesperada e sofregamente. Esquecer os teus desejos, simultaneamente desejando sê-los. Devorar o mundo com a sede de viver. Esquecer os quilómetros e as metronomias. Abraçar continentes e galgar mares revoltos. Repousar em ti e esquecer. Adorar-te venerando as montanhas e os vales da tua fisionomia. Afogar-me sem piedade. Ver-te espraiando espasmódica, na pequena morte das paixões.

Efeitos Sonoros

Dias cinzentos e palavras amargas. Café sem açúcar e histórias tristes passando na TV. Desliga o cantar agonizante desses falsos dramas. Imagens sobrecarregadas de horror para efeitos estilísticos. Largo tudo e vou em frente. Olvido as imagens e recordo tudo. Os sonhos de ontem e os anseios das noites mal dormidas.  Não há ansiolíticos para o absurdo que és tu.

Hope I Don't Fall In Love With You

Not again ... Aquela god damn música. Conjunto de acordes malditos que me atormentam. Questiono-me a razão de ser deste martírio auto-imposto. Esta espécie de profecia auto-realizável. Esta maviosa milonga que teimas em escutar sabendo exactamente o tipo de sentimento que irás despertar. Ahhhh... este delicioso mergulho nas águas barrentas e turvas do teu subconsciente. A banda sonora dos teus suspiros. O sonhar acordado de quem, não sabendo ser, imagina! Tomara ser tu, sendo eu. Viver essa meia-vida de misérias. De fantasias realizadas e amores de perdição. De regressos vácuos a casas despidas. Perdido na imensidão do meu lamento.