Achas-te duro e couraçado. Sentes-te impenetrável, invulnerável a sentimentalites agudas.
Consideras-te capaz de tudo racionalizar. De tudo analisar à luz de um frio e seco método pseudo-cientifico.
Acreditas ser diferente, na frieza dos teus actos indelicados. Superiormente capaz e preparado, lidas com leveza com a dor alheia.
Pensas ser feito de outro material, talvez fruto de intervenção divina ou de divina coincidência.
Espalhas dor e incompreensão nos lugares onde transitas.
Certo dia, diferente e igual como qualquer outro, apercebes-te dos meandros da tua estupidez e das lágrimas contidas.
Achas-te especialmente meditabundo e não sabes porquê.
Reflectes nos reflexos de causalidade e nas vidas transmutadas. Crês ver a vida com outra amarga clareza.
Compreendes finalmente a sua atracção gravitacional e percebes a tua irrelevância na sua inevitável conclusão.
Queres viver dias decorridos e pintar novamente as paisagens bucólicas de acontecimentos passados.
A imutável certeza do acontecido deprime-te. A incerteza da tua relevância acabrunha-te.
Vês o fim com clareza na impossibilidade de apagares as plúmbeas nódoas sentimentais.
Desistes para gáudio amargurado dos restantes, com um nó asfixiante na garganta.
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